domingo, 28 de julho de 2013

Rebirth...

   Essa noite, enquanto estava dentro do carro com meu padrasto e minha mãe aguardando o semáforo fechado, me deparei com uma das visões da realidade individualista e fria desse plano material - assumindo que exista outro onde receberemos o merecido a cada um.
   Um senhor de idade, muito magro, negro, com aparência de alguém que já sofreu demais - um cansaço tanto físico quanto mental; estava tentando atravessar a rua em direção ao hospital do outro lado. Ele possuia uma bolsa plástica transparente com alguns tubos conectados embaixo da roupa pendurada em sua cintura, o que aparentava um estado clínico ainda mais grave do que eu jamais poderia descrever por não ter noção alguma sobre isso...
   Enquanto eu estava dentro do carro, eu o observei pedindo ajuda a uma mulher com um semblante amargo e frio de quem achava que ele era algum mendigo sem casa ou família que não merecia qualquer atenção de alguém (no caso, ela) tão importante e com a vida caminhando ao nada que ela tanto imagina ser o grande futuro que a livrará de ser alguém ruim o suficiente para não contribuir a sociedade sequer quando respira...
   Então, minha mãe disse: "Ana, desce do carro e vai ajudá-lo a atravessar a rua..." mas eu insisti em uma esperança vaga de que a mulher não fosse realmente negar ajuda aquele pobre senhor.
  - Ana! Desce do carro e vá ajudá-lo. - minha mãe já disse com um tom de seriedade piedosa.
   Com a morte da esperança em que as pessoas poderiam ser um pouco menos individualistas e medrosas, eu me apressei a ajudá-lo. E durante nossa breve e vagarosa caminhada até o outro lado da rua, ele disse com pesar e um pouco de solidão rancorosa de quem já não confiava em ninguém:
  - As pessoas não gostam de nos ajudar. Eu pedi ajuda aquela moça quatro vezes e as quatro ela disse que eu podia ir sozinho, mas tudo o que eu precisava era de alguém que enxergasse melhor que eu para evitar que eu fosse atropelado. Mas ninguém se importa, na verdade.
   Eu o deixei no hospital com o coração partido e então eu refleti sobre a minha condição mental que fora diagnosticada como depressão... Dizem que a depressão é a doença do egoísta. Mas, me diga quem lê, é egoísmo me sentir tão ruim quando vejo o sofrimento e a dor que as pessoas sentem? É egoísmo o fato de me sentir tão mal por não poder salvar uma ou duas pessoas, um ou dois animais perdidos?
   Penso que a depressão não é como o senso comum dita, não é alguém egoísta. Mas alguém com esperança demais, acostumado a viver com plena confiança no bem e na melhora do mundo para todos, alguém com necessidade de ver as pessoas e os animais felizes e bem cuidados, com um propósito para viver para que assim pudesse criar o seu próprio propósito sem temer que um dia seja mais uma vítima da vida... Como eu já fui por muitos anos e não tive ninguém para me livrar dela.
   Talvez se eu aprendesse a controlar a minha necessidade de controle (essa foi boa!) e me contentasse em ajudar a todos que posso, vivendo para isso ao invés de morrer e não poder ajudar ninguém; talvez eu fosse mais contente. Talvez eu me libertasse da minha pior inimiga - olá, mente.
   E é isso, acontecimentos recentes me fizeram tentar mais uma vez um renascimento. E sim, a cada vez é mais cansativo ter que me remodelar, ter que me moldar a mercê do que eu posso alcançar de verdade. Me adaptar a realidade de que os meus ideais não passam de ideais, por hora...