quarta-feira, 17 de junho de 2015

"Ninguém pode, por muito tempo, ter um rosto para si mesmo e outro para a multidão sem no final confundir qual deles é o verdadeiro." - Hawthorne, Nathaniel

sábado, 6 de junho de 2015

A história de Bia.

Bia sempre foi uma criança introvertida que não sabia como impor suas vontades ou necessidades as pessoas a sua volta. Sempre soube que seria como um hamster colocado em um aquário de cobras quando saísse de sua barraca de lençol arquitetada cuidadosamente no centro de seu quarto - o mundo era um lugar além de hostil e seu certificado de "Como se adequar entre os idiotas que você despreza" venceu antes mesmo que ela soubesse que o tinha.
Sentia atração pela vizinha, se apaixonava pelo vizinho mas no final do dia declarava toda a sua devoção por sua mãe - seu instinto de proteção era voltado a ela. Era a aluna com notas altas que engolia alguma palavra prolixa enquanto soluçava chorando depois de algum colega de sala taxá-la como "inteligentizinha" e chutar sua canela.
No entanto, a escola sempre foi o refúgio quando precisava refletir sobre seu lar desestruturado, sua imagem paterna alcoolizada e sua necessidade em proteger a imagem materna do que ela esperava que fosse uma prévia da ruína matrimonial que viria.
Bia perdeu sua imagem paternal alcoolizada para o abandono afetivo de fato. Nunca soube como lidar com todos os seus piores sentimentos e ainda ser o apoio a pessoa que ela mais amava nessa mundo - sua mãe. Bia se perdeu em meio ao caos interno e a urgência em crescer para tomar as rédeas da responsabilidade - aos 13, Bia havia se tornado outrém.
A escola deixou de ser refúgio para se tornar um campo de batalha onde crianças pseudo crescidas e mal amadas com egos feridos estavam prontas para aniquilar qualquer espectro de vida que pairasse ali. Bia deixou de ir à escola para jogar video game na casa de um amigo da padaria. Seu amigo lhe dava kinder ovo e aquele gesto continha mais amor do que ela jamais poderia imaginar receber algum dia.
Bia foi levada a acreditar que a plenitude do amor se encontrava embaixo de suas roupas enquanto seu amigo suspirava no seu ouvido palavras amorosas que ela não sabia sequer o significado já que nunca as tinha ouvido. Não sabia ao certo se era aquilo que queria mas não poderia contrariar a única pessoa que tentou fazê-la se sentir amada; deveria ser aquilo. Aquilo era amor! E com toda a inocência de seu senso crítico mal trabalhado, de seu hímen intacto e de que aquilo era amor; se entregou. A dor que sentia não representava perigo maior do que havia sentido durante toda a sua infância, então, deveria ser mesmo amor.
E a única forma que ela aprendeu a amar foi através do seu silêncio... Que se perpetuou por alguns anos, como se estivesse submersa, impedida de respirar durante todo esse tempo.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

"Privilegiado de tevê"

Lá vem um conto sem cortes ou censuras
Um retrato sem imagens só rasuras
O que eu sinto tem que fazer mudar
Não dá pra continuar assim

Sessenta passos e eu sigo ao calabouço
Escondendo o medo do teu bolso
A opressão não pode me parar
Cai no mundo e tenho pelo que lutar
Lutar por mim, por todas nós!

Recobro à vida pra logo perdê-la
Você se foi mas ainda está na cabeceira
O comprimido feito pra limpar
Na sujeira me forçaram a ficar
A entrar... Entrou em mim!
Me machuca.

Silenciaram o meu assassinato
Lavaram a cueca do culpado
Disseram que eu já poderia prever
Se veste assim, então, quer pagar pra ver!

Então vê! O que você causou a todas nós
Não é você e não dói o quanto deve doer
Não em você... Um privilegiado
Privilégio de tevê!

Por todas que tiveram seus corpos violados
Lamentando aquela saia ter usado
Por todas nós cuja alma foi roubada
Fundo do poço nunca foi pra nossa alçada

Se a opressão acontece todo dia
Não se adapte, contraia alergia
Quero ver patriarcado nos calar
Enquanto vejo o machismo afundar!

Então vê! O que vocês causaram a nós
Não são vocês e não dói o que dói em mim!
Dói em nós, nas minorias. Não em você
Maldito, privilegiado de tevê!

E no final das contas a gente vira estatística
Um cheque mate no jogo dessa política
Política pra defender quem? Eu pergunto
Uma mulher é estuprada a cada 4 minutos
Violência contra mulher virou teste de virilidade
Sem consciência que pese na senilidade
A impunidade dos culpados alimenta a cultura do Silêncio
São crianças violentadas se expressando por desenhos
Imagem de uma nação que culpa a vítima
Imagem de uma vítima que se culpa
O medo e a vergonha escondem essa sujeira
Sujeira de quem? Eis a brincadeira...

A vida chama e devo continuar
Levando amor a quem quiser me escutar
Independente do que você protege
Vamos a luta, um dia a gente consegue

Eu vou mudar essa ideologia
Salvar o nosso dia.


Além de uma música, uma mensagem: "Por mais que pareça que a sua alma foi roubada enquanto o seu corpo foi machucado, por mais que pareça que tem uma bola de ferro presa na sua garganta te impedindo de gritar por socorro, de gritar de ódio, de gritar por vingança ou de gritar por justiça; você não está sozinha! O isolamento, o silêncio, a humilhação, a vergonha, a sujeira que você acredita mesmo que está em você; nada disso, nunca disse respeito a você e não podem te vencer agora. Por mais que o mundo te diga que você é a culpada, por mais que você fique revivendo aquele momento tentando encontrar onde foi que você falhou, por mais que você esconda a sua história por medo de ser taxada como aquela que mereceu por algum motivo que nunca seria o suficiente; por mais que o mundo caia em cima de você, por mais que te abandonem e te julguem; você nunca mereceu nada disso e ninguém nunca poderia merecer algo assim. A vida deve continuar e não permita que te forcem a abaixar a cabeça enquanto o culpado sai ileso. Não permita que esse tipo de situação - o silêncio; aconteça a outras pessoas. A mensagem final é: SORORIDADE! Acima de tudo."