Uma unha, um cigarro e um olhar. Acabei notando: perdi a minha voz!
Começou a era do silêncio... Não falo da voz potente e grave entoando alguma música que faz os pelos arrepiarem, mas da voz que fala ao meu ouvido que o dia amanhã ainda irá brilhar. A mesma voz que grita por princípios que só ela poderia me levar a acreditar. A característica dessa voz era esperança... Talvez prepotência. Mas ainda esperança. Esperança essa que eu nunca precisei analisar já que sempre esteve ali, presente e constante, mesmo quando me encontrava em meio ao caos emocional; mesmo quando não parecia haver uma luz no final do túnel, essa voz acendia em neon. Talvez não a luz que todos aprovassem, mas a luz que fazia sentido para mim. No final das contas, o meu mundo e o meu túnel são partes integrantes do meu Estado interior sob uma forma de governo egocêntrica e individualista; nada mais justo não caber a mais ninguém.
Mas parecia que alguém tinha arrombado os portões de aço entre as muralhas do meu mundo! Qual foi o gatilho que deu essa brecha? O mesmo gatilho que abastecia a voz: EU.
Eu estava de frente ao que poderia ser o grande amor da minha vida já que eu havia vivido aquela cena na minha cabeça mil vezes antes mesmo de nos conhecermos.
Eu e meu hino clássico que ecoa entre as feridas expostas que eu me recuso a fechar: "e se... e se... e se...". E se, eu retirasse os "e se"s e parasse de buscar razões para lamentar quando vivo tempos de calmaria? Continuo no "e se" e ele conseguiu me silenciar.
"E se, realmente, ele tiver razão?", "E se, tudo o que eu acredito não passar de uma invenção para amenizar o 'se sentir fora da caixa'?", "E se, ele descobrir a minha farsa?", "E se, eu concordar com ele e acreditar que sou uma farsa?" e o famoso: "E se eu for uma farsa?" - não precisávamos trocar uma só palavra.
Farsa? É, aquele sentimento que aparece de forma inesperada, sem circunstância certa e sem pedir permissão: não obstante a certeza de insuficiência, preenche os critérios para se tornar uma farsa. O que define uma farsa? Eu. Para quem eu defino a farsa? Aparentemente, para alguém que eu não conheço.
Ouso caracterizar essa descoberta da farsa como uma lacuna entre a razão e o amor próprio; a ponte entre ambos fora derrubada pelo pé de feijão das trevas plantado, estratégicamente, embaixo. Quem plantou? Eu vou jogar essa culpa nele porque auto sabotagem é um outro estágio de silêncio... Tentei explorar esse silêncio e tudo o que consegui foi ouvir um eco como se estivesse nas montanhas:
"QUE PORRA É ESSA, ANA?! Quando foi estabelecida essa regra de que você se importa com o que alguém possa ou não pensar em relação a você? E qual é a efetiva diferença que isso faz na sua vida ou no seu cotidiano? Pra quê? Não 'por quê?' mas: PRA QUÊ? A opinião alheia sempre diverge com a sua e isso nunca fez diferença em como você administra o seu mundo. A beleza da individualidade está em saber que a sua felicidade, o seu crescimento e qualquer outra cláusula que dite quem você é, o que quer ser ou vir a se tornar; cabe apenas a você! Essa é a supremacia do livre arbítrio. Essa é a preeminência da liberdade! É TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE BUSCOU!"
Um cigarro, uma unha e o olhar de quem não tinha mais nenhum poder sobre mim dentro de poucos instantes. A minha voz havia voltado depois de divagar até a minha grosseria natural:
- Quer saber, cara? Qual seu signo? E não me venha com a baboseira de "você é uma dessas que acreditam em signos?" já que, na verdade, eu sou uma dessas que acredita que continuo não dando a mínima sobre o seu signo até porque você não me pareceu interessante o suficiente desde que começou a encarar a minha unha roída e o meu cigarro como se existisse mesmo um universo paralelo onde você fosse superior a mim; foi só uma maneira educada de puxar assunto com o rei de um Estado que eu não tenho o menor interesse em conhecer. Se preferir, pergunto qual a sua data de nascimento e finjo que te farei uma surpresa no seu aniversário... Quer saber? Foda-se. Não converse mais comigo.
Um retrato de como fiquei conhecida por ser arrogante, mas que na realidade, se tratava de um resgaste a minha personalidade. Nunca foi sobre ninguém além de mim, não faria sentido. Não pra mim!
quinta-feira, 21 de maio de 2015
segunda-feira, 18 de maio de 2015
O surdo.
O problema estava nas unhas. Eu as roou, eu roou o esmalte, as cutículas, a carne dos dedos e se eu alcançasse os pés, ainda roeria. Isso caracteriza minha ansiedade, mas ele não enxergaria nada além do que a imagem pode proporcionar.
Foi um comentário machista aqui, um comentário capitalista ali e uma foto enviada sem pedir permissão, mostrava grande parte da sua ausência de falo mas mostrava a necessidade de reafirmar seu falocentrismo heterossexual; ele era mais um.
Quantas vezes perguntei se eu acabaria me adequando a mais um ou se finalmente estaria bem sozinha? Boa pergunta, mas, de fato, não importa. A questão é que eu não sabia se me explicava por conta das unhas ou se já começava a trabalhar meu desapego naquele exato momento.
"Bom, sabe qual a causa psicossomática de roer unhas?" - e ele iria me perguntar o que é psicótica ou somática; depois falaria algo como: 'Ah, não importa. Você tem uma bunda linda, sabia?'.
Voltamos a estaca zero. Estou presa no fumódromo com um potencial pretendente que não fuma, não para de encarar minhas mãos - não sei se a ojeriza é com o cigarro ou com as minhas unhas que entregam toda a minha performatividade masculina; eu devo mesmo continuar em uma situação desconfortável só porque a dúvida se aqueles olhos são cinzas, vedes ou azuis, já não cabe em mim?
Eu tinha que falar alguma coisa! Aquela situação estava me corroendo as entranhas como se meu intestino fosse uma lasanha: "Acho que te amo." - e meu inconsciente soltou a clássica gargalhada do "te ferrei, de novo". Para a minha surpresa: "Como assim? Como eu me chamo?". E eu, finalmente, tomei coragem para ir embora. Idiotas, ignorantes, superficiais, hipócritas e escorpianos, eu até aceito; mas de surda basta eu lidando com as prerrogativas da consciência!
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