segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Acendeu o último cigarro. É o processo, o ritual de despedida.
A despedida carrega o medo e a insegurança, a síndrome de peter pan e a ojeriza ao amadurecimento; ela se despede de um estilo de vida.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Blow out all the candles!

  Os olhos lacrimejaram depois de olhar fixamente para os traços brancos pintados no asfalto que passavam rapidamente; era o chão ou o céu - não fazia mais sentido olhar o inalcançável. Já não sabia se eram lágrimas de vista cansada ou de alma pesada, mas que diferença faria?
  A vida inteira acreditei que o inalcançável fosse apenas uma expressão para desiludir quem pensasse diferente... Temo que eu tenha, por fim, aceitado me encaixar. Assim como me encaixei em uma poltrona que lesava minhas pernas ao ponto que a dor física se equilibrou com a emocional.
  Foram algumas horas de viagem. A playlist já estava na terceira repetição e eu estava com aquele sentimento de que se a minha música preferida fosse a próxima a tocar tudo estaria bem... Mas eu havia me esquecido de adicioná-la a nova playlist e ela não tocou. Assim como a razão não tocava mais na minha mente. Eis, de volta, o desequilíbrio; amargo como jamais tinha sido antes.
  "Collecting names of the lovers that went wrong" - minha imaginação tornava real a sensação auditiva; eu podia ouvi-la como se realmente estivesse tocando. Quantos amores mais teriam que dar errado até que eu entendesse que o problema estava em mim?
  Sempre esperei demais das pessoas e ninguém conseguiria preencher o vazio dos meus pulmões para que eu desse um suspiro sincero. A nicotina sempre se encarregou disso. 
  Eu me acostumei a idéia de que tudo passa. Até o mais puro e belo romance passa se tornando uma piada interna na rodinha sentada no fundo do bar; eu gargalho e encho o copo para me levantar e ir ao fumódromo - não dá pra sonhar acordada com pessoas ao redor.
  Uma nova cidade, um novo bar, uma nova marca de cigarro e uma cerveja artesanal com gosto de café requentado; tudo parece novo demais para uma consciência tão velha. Parece que todos os dias eu pego um comprimido de desilusão e o engulo como se fosse meu fiel escudeiro. Ninguém pode te magoar quando você já não tem ilusões, da mesma forma que ninguém pode te surpreender se você não tiver esperanças.
  A cigana que passava pela rua pegou a minha mão como se tivesse a solução dos meus problemas e enquanto olhava aterrorizada nos meus olhos, disse: "Uma face tão nova para uma alma tão antiga. Você é muito apegada a destruição." e me aconselhou que acendesse uma vela para o meu anjo da guarda me proteger.
  Tem uma vela acesa em cima do armário da cozinha com uma carta embaixo escrita para o meu anjo da guarda: "Me poupe de mim mesma, por favor. Assim seja.".
  Triste perceber que não existe ninguém no mundo que possa me ferir mais que eu mesma e disso eu tenho corrido com todo o meu fôlego. O problema é que depois do vício, fôlego não é alternativa e correr sempre foi um caminho muito difícil para alguém tão apaixonada pela instabilidade caótica que a minha vida pode criar da noite para o dia. Eu estou fadada a lidar comigo até o fim dos meus dias.
  Há quatro anos que penso em reescrever um esboço de livro que perdi, mas o medo de me reconectar a tudo o que me fez ser como sou me petrifica. A busca pelo auto conhecimento é uma maldita faca de dois gumes quando você se ilude que perdoou o mundo mas suas unhas pagam por essa frustração toda vez que solta uma lasca nos dentes.
  O verdadeiro problema está em aceitar que possa ser verdade quando ele diz que me ama, mas que me ama com todos as minhas qualidades e mais ainda pelos meus defeitos...
  A definição de flagelação é esperar ansiosamente pelo dia em que ele irá me abandonar numa rua vazia e insuportavelmente fria que se assemelhe ao estado da minha alma após ele me dizer que finalmente reconheceu que seu equívoco; e toda a esperança que eu engoli durante o tempo que ficamos juntos irá descer como um veneno e me causar um refluxo para o resto da vida.
  "PARADA EM SÃO PAULO! FAVOR DESCER DO ÔNIBUS!", mas eu queria mesmo era descer do trem desgovernado que eu chamo de mente já que ele não me pertence. Ele nunca poderia me pertencer já que isso pediria que eu o pertencesse em troca... Não posso entregar algo que sequer me pertence no momento. Eu me perdi no meio das minhas neuroses e dos pensamentos contínuos de que estou fadada a não ser de ninguém, sequer minha. 
  

sábado, 11 de julho de 2015

Seu nome é Karma!

Seu perfume era como um afrodisíaco natural que se deveria comercializar como uma espécie de poção amorosa. Eu nunca havia experimentado uma fragância que tivesse tanto controle sobre mim.
Não era só o cheiro mas a forma como ele mexia os dedos assinalando os instrumentos das músicas... Ah, era como uma varinha de condão que me regia para onde quisesse; esse era o início do meu fim.
E desde então, ele esteve aqui. Principalmente, quando não esteve.
Eu forço a memória e consigo ouvir sua voz e suas oscilações entoando alguma piada sexualizada intencionalmente para depois me dizer que não se trata apenas de sexo mas sim de um "algo mais".
No meu dicionário esse "algo mais" vem seguido de uma imagem onde eu estou encostada em algum canto de parede escuro balançando o meu corpo enquanto abraço minhas pernas agachada e choro dizendo ao mundo "Quanto está o score do Karma, agora?"; mas além disso, é o último suspiro da menininha crente dentro de mim que aguarda ansiosamente por uma demonstração de que isso, de fato, possa ser verdade.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

"Ninguém pode, por muito tempo, ter um rosto para si mesmo e outro para a multidão sem no final confundir qual deles é o verdadeiro." - Hawthorne, Nathaniel

sábado, 6 de junho de 2015

A história de Bia.

Bia sempre foi uma criança introvertida que não sabia como impor suas vontades ou necessidades as pessoas a sua volta. Sempre soube que seria como um hamster colocado em um aquário de cobras quando saísse de sua barraca de lençol arquitetada cuidadosamente no centro de seu quarto - o mundo era um lugar além de hostil e seu certificado de "Como se adequar entre os idiotas que você despreza" venceu antes mesmo que ela soubesse que o tinha.
Sentia atração pela vizinha, se apaixonava pelo vizinho mas no final do dia declarava toda a sua devoção por sua mãe - seu instinto de proteção era voltado a ela. Era a aluna com notas altas que engolia alguma palavra prolixa enquanto soluçava chorando depois de algum colega de sala taxá-la como "inteligentizinha" e chutar sua canela.
No entanto, a escola sempre foi o refúgio quando precisava refletir sobre seu lar desestruturado, sua imagem paterna alcoolizada e sua necessidade em proteger a imagem materna do que ela esperava que fosse uma prévia da ruína matrimonial que viria.
Bia perdeu sua imagem paternal alcoolizada para o abandono afetivo de fato. Nunca soube como lidar com todos os seus piores sentimentos e ainda ser o apoio a pessoa que ela mais amava nessa mundo - sua mãe. Bia se perdeu em meio ao caos interno e a urgência em crescer para tomar as rédeas da responsabilidade - aos 13, Bia havia se tornado outrém.
A escola deixou de ser refúgio para se tornar um campo de batalha onde crianças pseudo crescidas e mal amadas com egos feridos estavam prontas para aniquilar qualquer espectro de vida que pairasse ali. Bia deixou de ir à escola para jogar video game na casa de um amigo da padaria. Seu amigo lhe dava kinder ovo e aquele gesto continha mais amor do que ela jamais poderia imaginar receber algum dia.
Bia foi levada a acreditar que a plenitude do amor se encontrava embaixo de suas roupas enquanto seu amigo suspirava no seu ouvido palavras amorosas que ela não sabia sequer o significado já que nunca as tinha ouvido. Não sabia ao certo se era aquilo que queria mas não poderia contrariar a única pessoa que tentou fazê-la se sentir amada; deveria ser aquilo. Aquilo era amor! E com toda a inocência de seu senso crítico mal trabalhado, de seu hímen intacto e de que aquilo era amor; se entregou. A dor que sentia não representava perigo maior do que havia sentido durante toda a sua infância, então, deveria ser mesmo amor.
E a única forma que ela aprendeu a amar foi através do seu silêncio... Que se perpetuou por alguns anos, como se estivesse submersa, impedida de respirar durante todo esse tempo.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

"Privilegiado de tevê"

Lá vem um conto sem cortes ou censuras
Um retrato sem imagens só rasuras
O que eu sinto tem que fazer mudar
Não dá pra continuar assim

Sessenta passos e eu sigo ao calabouço
Escondendo o medo do teu bolso
A opressão não pode me parar
Cai no mundo e tenho pelo que lutar
Lutar por mim, por todas nós!

Recobro à vida pra logo perdê-la
Você se foi mas ainda está na cabeceira
O comprimido feito pra limpar
Na sujeira me forçaram a ficar
A entrar... Entrou em mim!
Me machuca.

Silenciaram o meu assassinato
Lavaram a cueca do culpado
Disseram que eu já poderia prever
Se veste assim, então, quer pagar pra ver!

Então vê! O que você causou a todas nós
Não é você e não dói o quanto deve doer
Não em você... Um privilegiado
Privilégio de tevê!

Por todas que tiveram seus corpos violados
Lamentando aquela saia ter usado
Por todas nós cuja alma foi roubada
Fundo do poço nunca foi pra nossa alçada

Se a opressão acontece todo dia
Não se adapte, contraia alergia
Quero ver patriarcado nos calar
Enquanto vejo o machismo afundar!

Então vê! O que vocês causaram a nós
Não são vocês e não dói o que dói em mim!
Dói em nós, nas minorias. Não em você
Maldito, privilegiado de tevê!

E no final das contas a gente vira estatística
Um cheque mate no jogo dessa política
Política pra defender quem? Eu pergunto
Uma mulher é estuprada a cada 4 minutos
Violência contra mulher virou teste de virilidade
Sem consciência que pese na senilidade
A impunidade dos culpados alimenta a cultura do Silêncio
São crianças violentadas se expressando por desenhos
Imagem de uma nação que culpa a vítima
Imagem de uma vítima que se culpa
O medo e a vergonha escondem essa sujeira
Sujeira de quem? Eis a brincadeira...

A vida chama e devo continuar
Levando amor a quem quiser me escutar
Independente do que você protege
Vamos a luta, um dia a gente consegue

Eu vou mudar essa ideologia
Salvar o nosso dia.


Além de uma música, uma mensagem: "Por mais que pareça que a sua alma foi roubada enquanto o seu corpo foi machucado, por mais que pareça que tem uma bola de ferro presa na sua garganta te impedindo de gritar por socorro, de gritar de ódio, de gritar por vingança ou de gritar por justiça; você não está sozinha! O isolamento, o silêncio, a humilhação, a vergonha, a sujeira que você acredita mesmo que está em você; nada disso, nunca disse respeito a você e não podem te vencer agora. Por mais que o mundo te diga que você é a culpada, por mais que você fique revivendo aquele momento tentando encontrar onde foi que você falhou, por mais que você esconda a sua história por medo de ser taxada como aquela que mereceu por algum motivo que nunca seria o suficiente; por mais que o mundo caia em cima de você, por mais que te abandonem e te julguem; você nunca mereceu nada disso e ninguém nunca poderia merecer algo assim. A vida deve continuar e não permita que te forcem a abaixar a cabeça enquanto o culpado sai ileso. Não permita que esse tipo de situação - o silêncio; aconteça a outras pessoas. A mensagem final é: SORORIDADE! Acima de tudo."

quinta-feira, 21 de maio de 2015

A Era do silêncio.

Uma unha, um cigarro e um olhar. Acabei notando: perdi a minha voz!
Começou a era do silêncio... Não falo da voz potente e grave entoando alguma música que faz os pelos arrepiarem, mas da voz que fala ao meu ouvido que o dia amanhã ainda irá brilhar. A mesma voz que grita por princípios que só ela poderia me levar a acreditar. A característica dessa voz era esperança... Talvez prepotência. Mas ainda esperança. Esperança essa que eu nunca precisei analisar já que sempre esteve ali, presente e constante, mesmo quando me encontrava em meio ao caos emocional; mesmo quando não parecia haver uma luz no final do túnel, essa voz acendia em neon. Talvez não a luz que todos aprovassem, mas a luz que fazia sentido para mim. No final das contas, o meu mundo e o meu túnel são partes integrantes do meu Estado interior sob uma forma de governo egocêntrica e individualista; nada mais justo não caber a mais ninguém.
Mas parecia que alguém tinha arrombado os portões de aço entre as muralhas do meu mundo! Qual foi o gatilho que deu essa brecha? O mesmo gatilho que abastecia a voz: EU.
Eu estava de frente ao que poderia ser o grande amor da minha vida já que eu havia vivido aquela cena na minha cabeça mil vezes antes mesmo de nos conhecermos.
Eu e meu hino clássico que ecoa entre as feridas expostas que eu me recuso a fechar: "e se... e se... e se...". E se, eu retirasse os "e se"s e parasse de buscar razões para lamentar quando vivo tempos de calmaria? Continuo no "e se" e ele conseguiu me silenciar.
"E se, realmente, ele tiver razão?", "E se, tudo o que eu acredito não passar de uma invenção para amenizar o 'se sentir fora da caixa'?", "E se, ele descobrir a minha farsa?", "E se, eu concordar com ele e acreditar que sou uma farsa?" e o famoso: "E se eu for uma farsa?" - não precisávamos trocar uma só palavra.
Farsa? É, aquele sentimento que aparece de forma inesperada, sem circunstância certa e sem pedir permissão: não obstante a certeza de insuficiência, preenche os critérios para se tornar uma farsa. O que define uma farsa? Eu. Para quem eu defino a farsa? Aparentemente, para alguém que eu não conheço.
Ouso caracterizar essa descoberta da farsa como uma lacuna entre a razão e o amor próprio; a ponte entre ambos fora derrubada pelo pé de feijão das trevas plantado, estratégicamente, embaixo. Quem plantou? Eu vou jogar essa culpa nele porque auto sabotagem é um outro estágio de silêncio... Tentei explorar esse silêncio e tudo o que consegui foi ouvir um eco como se estivesse nas montanhas:
"QUE PORRA É ESSA, ANA?! Quando foi estabelecida essa regra de que você se importa com o que alguém possa ou não pensar em relação a você? E qual é a efetiva diferença que isso faz na sua vida ou no seu cotidiano? Pra quê? Não 'por quê?' mas: PRA QUÊ? A opinião alheia sempre diverge com a sua e isso nunca fez diferença em como você administra o seu mundo. A beleza da individualidade está em saber que a sua felicidade, o seu crescimento e qualquer outra cláusula que dite quem você é, o que quer ser ou vir a se tornar; cabe apenas a você! Essa é a supremacia do livre arbítrio. Essa é a preeminência da liberdade! É TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE BUSCOU!"
Um cigarro, uma unha e o olhar de quem não tinha mais nenhum poder sobre mim dentro de poucos instantes. A minha voz havia voltado depois de divagar até a minha grosseria natural:
   - Quer saber, cara? Qual seu signo? E não me venha com a baboseira de "você é uma dessas que acreditam em signos?" já que, na verdade, eu sou uma dessas que acredita que continuo não dando a mínima sobre o seu signo até porque você não me pareceu interessante o suficiente desde que começou a encarar a minha unha roída e o meu cigarro como se existisse mesmo um universo paralelo onde você fosse superior a mim; foi só uma maneira educada de puxar assunto com o rei de um Estado que eu não tenho o menor interesse em conhecer. Se preferir, pergunto qual a sua data de nascimento e finjo que te farei uma surpresa no seu aniversário... Quer saber? Foda-se. Não converse mais comigo.
Um retrato de como fiquei conhecida por ser arrogante, mas que na realidade, se tratava de um resgaste a minha personalidade. Nunca foi sobre ninguém além de mim, não faria sentido. Não pra mim!

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O surdo.

O problema estava nas unhas. Eu as roou, eu roou o esmalte, as cutículas, a carne dos dedos e se eu alcançasse os pés, ainda roeria. Isso caracteriza minha ansiedade, mas ele não enxergaria nada além do que a imagem pode proporcionar. 
Foi um comentário machista aqui, um comentário capitalista ali e uma foto enviada sem pedir permissão, mostrava grande parte da sua ausência de falo mas mostrava a necessidade de reafirmar seu falocentrismo heterossexual; ele era mais um.
Quantas vezes perguntei se eu acabaria me adequando a mais um ou se finalmente estaria bem sozinha? Boa pergunta, mas, de fato, não importa. A questão é que eu não sabia se me explicava por conta das unhas ou se já começava a trabalhar meu desapego naquele exato momento.
"Bom, sabe qual a causa psicossomática de roer unhas?" - e ele iria me perguntar o que é psicótica ou somática; depois falaria algo como: 'Ah, não importa. Você tem uma bunda linda, sabia?'.
Voltamos a estaca zero. Estou presa no fumódromo com um potencial pretendente que não fuma, não para de encarar minhas mãos - não sei se a ojeriza é com o cigarro ou com as minhas unhas que entregam toda a minha performatividade masculina; eu devo mesmo continuar em uma situação desconfortável só porque a dúvida se aqueles olhos são cinzas, vedes ou azuis, já não cabe em mim?
Eu tinha que falar alguma coisa! Aquela situação estava me corroendo as entranhas como se meu intestino fosse uma lasanha: "Acho que te amo." - e meu inconsciente soltou a clássica gargalhada do "te ferrei, de novo". Para a minha surpresa: "Como assim? Como eu me chamo?". E eu, finalmente, tomei coragem para ir embora. Idiotas, ignorantes, superficiais, hipócritas e escorpianos, eu até aceito; mas de surda basta eu lidando com as prerrogativas da consciência!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A minha caixa amorosa.

De tempos em tempos eu tenho essa sensação de estar fora da caixa.
Imagino que eu não tente me encaixar na caixa, as vezes, por pensar que posso acabar me perdendo no vasto espaço que essa caixa pode ter; as vezes, por pensar que meu corpo transbordaria para fora junto com meu cabelo e as minhas risadas ecoariam no mundo exterior a caixa.
Eu crio a minha própria caixa sob o meu governo egocêntrico, onde a principal regra é aceitar o ridículo como um bem necessário ao meu crescimento.
De tempos em tempos eu crio uma realidade alternativa onde eu sou romanticamente correspondida!
Eu estou caminhando sob a luz da lua e não consigo mais sentir minhas pernas, pois estou andando há algum tempo e tentando fugir da solidão. Coloco o meu hino romântico no repeat infinito e fico repetindo "I feel the four become five and I am waiting, waiting, waiting... For you to walk down the boulevard and to take me, take me, take me...". A cada rosto que passa chamando atenção, já foram criadas inúmeras vidas e inúmeros finais, nada que realmente me prendesse o suficiente para querer trazer a realidade. Até que eu decido sentar no meio fio de uma rua escura com iluminação concentrada onde há um movimento de pessoas.
Lá está ele: O cara dos meus sonhos! Com seu estilo ousado de quem não se importa com o que podem pensar, seu olhar frio e vazio de quem não vai amar nada além da sua crise existencial constante, seu andar apressado de quem não tem pra onde ir mas não vai parar até encontrar; e por fim, eu noto o suficiente: nunca teríamos nada verdadeiro ou confortável o bastante para uma realidade saudável. É ele! Eu preciso dele. Quero que ele me acorde com um sms romântico dizendo que nunca amaria ninguém além de mim já que eu sou tudo o que ele sempre buscou ou que dê cena de ciúmes quando me encontrar gargalhando no meio da multidão só para que eu possa rir na cara dele enquanto digo que ele não deveria se importar tanto já que está mais do que claro que não existe ninguém mais no mundo que eu poderia amar ou identificar o reverso de todas as minhas características mais terríveis; quero que nos pertençamos! 
Enquanto ele passa apressado, eu solto um grito meio gargalhado, meio sonhador: "Cara! Tem isqueiro?"; retiro um dos foninhos do ouvido mas ainda consigo ouvir a letra pelo fone direito, dizendo: "Love is a two way street" - o meu amor nunca precisou de mão dupla, uma via é suficiente para que eu me entregue.
"Não... Não fumo.", sequer diminuiu a velocidade do andar ou correspondeu com algum sorriso doce que seria característico dele. É, não é ele. Mas poderia se eu não estivesse ocupada imaginando nosso divórcio quando ele descobrisse que não era amor, mas comodismo. Ele nunca gostou das minhas gargalhadas altas e eu nunca respeitei o apego que ele tinha por aquela camiseta velha do Aerosmith; não era pra ser.
Enquanto eu ainda seguro o cigarro apagado entre os dedos, viro meu rosto para acompanhar os lábios que deixam vazar algo: "Eu tenho isqueiro... Espera...". Uma mulher franzina e branca demais que fuma... Será que o amor da minha vida viria em uma embalagem parecida com a minha?
Eu acendo o cigarro e peço para ela me acompanhar, além do mais, não posso sonhar a noite inteira.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Solidão Colorida

Era um quadro como outro qualquer. Características abstratas, mescla de cores e várias imagens interpretáveis...
O devaneio bateu com força dessa vez, como todas as outras vezes; "O que é que deu errado?" - ecoava na minha mente.
Se eu tivesse sido menos eu por alguns segundos, talvez a essa altura, eu já tivesse alguém para chamar de "meu".
Esse sempre foi o maior conflito dentro de mim: será que eu precisava mesmo de alguém ou é a solidão, outra vez, tentando boicotar meus planos?
E assim, eu me arrastei atrás de quem nunca providenciaria o que eu precisava. E o que eu precisava? Talvez carinho, talvez amor, talvez loucura e discussão; tudo que resultasse em desequilíbrio emocional em algum momento.
Eu queria um motivo! Eu queria alguém para responsabilizar pela minha infelicidade... Não era aceitável ser a responsável.
E se a culpa fosse das constelações e a posição dos planetas? Talvez de algum ser divino e supremo que controlasse o meu destino...
Parece que quanto mais eu questionava, mais longe me encontrava de uma resposta concreta. E se essa resposta estivesse em mim?
Droga, não conhecia ninguém que tivesse feito uma lobotomia bem sucedida ou algum pai de santo que a encontrasse em minha alma.
Era tudo culpa daquele maldito quadro! Eu sempre disse que as cores dele não combinavam com a capa do sofá mas nunca tomei uma atitude.
Acho que tinha medo de deixar a parede vazia e dar um ar muito simples à sala de estar... Não tenho outro quadro para colocar!
E se eu mudasse a capa do sofá? Bom, eu gostava da capa do sofá marrom. Dava o ar de sobriedade que eu precisava no meio de tantas cores.
Eu nunca gostei de cores, na verdade. Eu gostava de pensar no mundo como um gibi preto e branco - não cabia muita interpretação visual.
De fato, tudo que trazia a descrição "visual" me dava náuseas mas sempre escolhi as pessoas assim. Visualmente agradável? Ok.
Eu temia muito o ridículo por não me enquadrar no "visual" aceitável, até que abracei o ridículo como um adjetivo não mais pejorativo.
Agora, quero que o mundo seja todo ridículo em suas particularidades coloridas e que tudo se encaixe nesse maldito quadro!
Acabei nomeando o quadro como "Solidão colorida" - um nome irônico e divertido que sempre me lembra que o que eu preciso é parar de
me irritar com as inconstâncias e parar de tentar parear as coisas... Tanto o quadro e o sofá, quanto eu e alguém que não se encaixa em mim.
"Solidão colorida" é seu nome. Signo de áries. Seu ser divino e supremo é aquele que se identificar em suas cores - vermelho, azul, verde, preto, amarelo e traços dourados que desenham o cabelo de Marilyn Monroe em sua forma abstrata de quem estará ali sozinha enquanto for identificada assim.

segunda-feira, 23 de março de 2015

O chão disse algo.

   Eu acordei no meio da noite após saltar em desespero como quem caía de um penhasco em algum sonho traiçoeiro, me perguntando: "E se?"
   Aquele copo sujo em cima do meu teclado andava me irritando! Não mais do que a meia suja que eu joguei no canto e não tive coragem de retirar. Mas tudo anda meio que me irritando depois que ele disse que não poderíamos namorar já que namorar para ele implicaria em estar apaixonado... Coisa que ele não estava.
    O que ele quis dizer com isso? É uma boa pergunta. Mas a pergunta que não quer calar mesmo é por que eu não dobrei aquela cropped vermelha que está em cima da mesa há uma semana?! Aquela guimba de cigarro está em cima da pia há dois dias e já não sei se a finalizo ou a jogo fora.
     Ele tinha ojeriza à cigarro. Eu prometi que pararia mas não iria adiantar... Esse era o menor dos meus defeitos e quem não pode suportar uma fumacinha eventual não conseguiria aguentar a carga de lidar com a minha desordem; e nem estou falando da emocional, ainda.
      Fiquei com receio em pendurar aquela sátira feminista na porta da sala e ele ver. Ele não entendia muito bem os meus ideais e normalmente eu me silenciava porque tentava me adaptar à ele. O que é que custa tentar mudar algumas coisas em troca da felicidade a dois, certo? Errado. Eu odeio lavar pratos e odeio mais ter que lavar copos. Foram alguns copos noutro dia... E depois o chão da sala... Ah, eu não acho que estou pronta para o compromisso de amar. E para ele, parece que amar implica em mudar. Quanto mais eu tenho que mudar? Já me deu preguiça só de pensar.
       Quando ele disse que não estava apaixonado eu me senti aliviada e ao mesmo tempo ultrajada. O que isso quer dizer? Não sou suficientemente boa para ele ou é o contrário? Ou não quer dizer nada? Mas tudo diz alguma coisa, até o mais profundo silêncio e as toalhas molhadas penduradas no chuveiro dizem algo... O que é que isso significa? Que de novo, escolheram não me amar...
      Sei que é complicado amar alguém como eu. Alguém que não cabe em qualquer lugar. Tem lugares específicos para me guardar... Eu nunca coube em qualquer retrato e não seguro em qualquer mão. Exigente? Talvez um pouco além da cota para alguém que possui uma pilha de roupas segurando as contas do mês que vem no rack... Quer saber? Que seja assim, então. Que ele fique bem com o mundo dele. Eu estarei bem no meu... Quem sabe, por ironia do acaso, eu volte a escrever? Não por ele, mas pelo silêncio dele que representou mais do que a presença em si.

Disse Carol...

Os olhos se encontraram enquanto as mãos se tocavam, corações arrítmicos e palmas suadas.
  - Mas... O que você acha de começarmos a namorar? Eu g-o-s...to de você e... Bom, eu espero... Não sei, acho que talvez você também goste de mim dessa forma e... Nossa, estou nervoso. - dizia Walter enquanto sentia um frio na espinha que tirava a cor dos seus lábios mesmo não havendo nenhuma conexão.
  - Não sei... - Carol suspirava algumas palavras enquanto assistia alguns filmes clichês rodando na cabeça e ouvia aquela voz que vinha do âmago dizer:
  " Para! Você já sabe como isso vai acabar, Carol. Não faça isso. Você já conhece todos os defeitos dele e agora é a hora de numerá-los para que você não se engane e não se machuque. Lembra do dia em que ele deu uma pequena babada depois de rir muito e você sentiu como se a relação estivesse mais humanizada após isso? Espera, não foi negativo o suficiente... Mas, ele fuma! E fumantes não vivem o suficiente para ver os filhos casando. Apesar de que você sempre achou sexy a maneira como ele deixa os lábios entreabertos enquanto traga e depois solta uma risada em um estilo chaminé que você nunca admirou dessa forma, então não vale, também. Achei! Ele ama chocolate! Você também ama chocolate! E na páscoa isso será um problema porque vocês acabarão brigando pelo Laka que ele vai comprar de presente pra você porque ele sabe que é o seu chocolate preferido e normalmente ele compra em grande quantidade que é pra dar para toda a família. Droga! Espera... Ele tem uma pinta meio rosada nas costas da mão que você nunca soube identificar ser eram orelhas de coelho ou um coração! Aquilo te deixa muito intrigada... O suficiente para te trazer ojeriza em algum momento e arruinar tudo. Isso! Ele tem muitos defeitos que você não conseguiria superar. Diz não! Diz não! DIZ NÃO, CAROL!"
  - Eu não quero namorar agora. Acho que devemos continuar essa relação casualmente mesmo. - dizia Carol com o nariz levantado como o de uma pianista em uma apresentação.
  - Mas Carol... Você sabe que eu quero namorar e que se for para continuar algo que não seja concreto, prefiro estar sozinho...
  - Então, que fique sozinho, Walter. Nós nunca daríamos certo mesmo.

sábado, 7 de março de 2015

Eu ouço os sinos... De novo.

Mais uma daquelas noites reflexivas em que você perde o sono e decide aderir a proposta 'dazamiga' de participar do blog dela. Um texto que descreve um momento, várias dores, uma personalidade, uma música e um estilo de vida.
Tudo começa quando ele responde a mensagem entusiasmada com alguma expressão estúpida que na verdade suspirava nas entrelinhas: "Querida, não estou afim de você!"; todos os amores não correspondidos e as ilusões da sua vida passam pelos olhos como um filme que já foi rodado um milhão de vezes e a fita acabou de prender no reprodutor: Quem foi que me colocou nesse ciclo infinito?
Eu sempre digo que é só uma inofensiva garrafa de vinho até tê-la secado por completo e perceber, apenas quando não há um sentido sequer que esteja intacto; que mais uma vez eu confundi álcool com amor e novamente confundi privada surrada de posto com altar de pensamento enquanto ejetava todo o "licor de pseudo amor" - conhecido como vômito.
Todas as risadas que eu já soltei enquanto lia textos da Tati ou da Young, me recusando a acreditar que alguém realmente pudesse sentir aquilo; tornaram-se combustível do descontentamento. Cheguei a conclusão de que sempre vou me sentir assim! Meio de lado, meio esquecida, meio abandonada e sempre meio de algo ou no meio de alguém e talvez sempre no meio de ser inteira por completo. Cheguei também a conclusão inevitável de que sempre haverá a possibilidade de esbarrar em um amor ou passar despercebida por ele ou talvez até descobrir um amor enquanto já amasse e que no final das contas, todos continuarão a ser amores mesmo quando eu tropeçar em algum no supermercado e me perguntar: "De onde é que o conheço mesmo? Hm, acho que já fui apaixonada por esse. Mas e aquele no caixa 3? Certeza que já o amei."
Se ao menos houvessem dedos suficientes para contabilizar quem já ocupou a vaga ao meu lado mesmo não cabendo nela, talvez por mim e bem mais por eles. Acaba sendo como sempre espero, se tornam um número na estatística dos "quase relacionamentos", dos "quase pegas", dos "com esse eu poderia até acreditar em casamento", dos "como é que eu me meti nessa fria?", dos "aham, agora me beija", dos "cala a boca, cara. tá chato" e dos piores: os "Fábios Henriques" - os típicos amores não correspondidos que te deixam de molho e te pisam enquanto ainda não têm certeza se precisarão de um step.
Mas dedos e números não te dizem que mesmo depois de todos eles, você ainda vai continuar respirando. Que mesmo depois de Fábio Henrique você vai continuar rindo dos videoclipes do Blink 182. Que mesmo depois de cada mensagem visualizada e não respondida, o mundo ainda dá voltas. E que voltas! Volta e meia dá tantas voltas que você acaba sendo mais um número estatístico na lista de alguém e sem ver você acaba sendo um "Fábio Henrique" (será que ele pode me processar por denominar relações com o nome dele?). E por fim, mesmo depois de tantos trancos e barrancos você ainda vai acreditar que possa haver mesmo alguém que combine com você. Não para gerar família, não pelas festas e fotos de casamento, não pelo status na rede social; mas, apenas pra poder olhar no fundo dos olhos desse amor e ter certeza que foi compreendida e que talvez, só talvez, pela primeira vez (de novo) em muito tempo, você possa, finalmente, se abrir e utilizar quantas vírgulas quiser em alguma carta e ele vai rir sabendo que você tem essa mania. Um amor que entenda o que eu quis dizer com "Eu ouço os sinos" por que sabe que eu sou fanática por Veronica Mars e Mike Doughty é o hino da minha vida em momentos de monólogo; e eu, provavelmente, já o teria obrigado a assistir mil vezes a série comigo enquanto brigássemos pelo travesseiro e pela parte confortável do sofá.
Mas o texto termina, a ilusão cessa e o absorvente interno está todo amassado pelo pompoarismo mal utilizado. O amor dos meus sonhos, uma hora dessa, pode estar em algum lugar da Ásia ou na periferia de São Paulo esquentando um leite quente pra tomar com canudinho antes de dormir. Vai saber, né? Nunca me interessei por vidência, de fato, nem acredito.
Só sei de uma coisa: prometo não permitir arruinar minhas crenças amorosas e meus ideais vitalícios até que eu derrube a caneca preferida do meu verdadeiro amor e entremos em uma discussão que irá decidir se ele é ou não é aquele que eu sempre aguardei.
Mas que fique claro que eu aguardo o verdadeiro amor sem temer amores errados e ojerizando amores falsos.

Mais uma vez ela sorriu...

Sorriu para o dia que nascia e trazia com ele novas esperanças; talvez um futuro melhor ou alguém melhor, ao menos.
Ela abriu um sorriso e mostrou alguns de seus dentes amarelados de quem fumou por muito tempo para o atendente da padaria - aquele que já a viu caída na calçada após a balada do dia anterior algumas vezes.
O sorriso permanece enquanto ela atravessa a antiga praça da cidade e se lembra do que ela denomina ter sido o pior dia de sua vida - um lugar, um momento, uma agonia e uma recordação; nada pode ditar quem ela é atualmente.
Ela franze a testa enquanto o vento bate contra seu rosto e mais uma vez aperta os olhos antes de abrir um sorriso, passa os dedos sob a marca de sol do seu dedo anelar e logo em seguida solta um suspiro. A solidão, às vezes, é o melhor remédio.