quinta-feira, 16 de abril de 2015

A minha caixa amorosa.

De tempos em tempos eu tenho essa sensação de estar fora da caixa.
Imagino que eu não tente me encaixar na caixa, as vezes, por pensar que posso acabar me perdendo no vasto espaço que essa caixa pode ter; as vezes, por pensar que meu corpo transbordaria para fora junto com meu cabelo e as minhas risadas ecoariam no mundo exterior a caixa.
Eu crio a minha própria caixa sob o meu governo egocêntrico, onde a principal regra é aceitar o ridículo como um bem necessário ao meu crescimento.
De tempos em tempos eu crio uma realidade alternativa onde eu sou romanticamente correspondida!
Eu estou caminhando sob a luz da lua e não consigo mais sentir minhas pernas, pois estou andando há algum tempo e tentando fugir da solidão. Coloco o meu hino romântico no repeat infinito e fico repetindo "I feel the four become five and I am waiting, waiting, waiting... For you to walk down the boulevard and to take me, take me, take me...". A cada rosto que passa chamando atenção, já foram criadas inúmeras vidas e inúmeros finais, nada que realmente me prendesse o suficiente para querer trazer a realidade. Até que eu decido sentar no meio fio de uma rua escura com iluminação concentrada onde há um movimento de pessoas.
Lá está ele: O cara dos meus sonhos! Com seu estilo ousado de quem não se importa com o que podem pensar, seu olhar frio e vazio de quem não vai amar nada além da sua crise existencial constante, seu andar apressado de quem não tem pra onde ir mas não vai parar até encontrar; e por fim, eu noto o suficiente: nunca teríamos nada verdadeiro ou confortável o bastante para uma realidade saudável. É ele! Eu preciso dele. Quero que ele me acorde com um sms romântico dizendo que nunca amaria ninguém além de mim já que eu sou tudo o que ele sempre buscou ou que dê cena de ciúmes quando me encontrar gargalhando no meio da multidão só para que eu possa rir na cara dele enquanto digo que ele não deveria se importar tanto já que está mais do que claro que não existe ninguém mais no mundo que eu poderia amar ou identificar o reverso de todas as minhas características mais terríveis; quero que nos pertençamos! 
Enquanto ele passa apressado, eu solto um grito meio gargalhado, meio sonhador: "Cara! Tem isqueiro?"; retiro um dos foninhos do ouvido mas ainda consigo ouvir a letra pelo fone direito, dizendo: "Love is a two way street" - o meu amor nunca precisou de mão dupla, uma via é suficiente para que eu me entregue.
"Não... Não fumo.", sequer diminuiu a velocidade do andar ou correspondeu com algum sorriso doce que seria característico dele. É, não é ele. Mas poderia se eu não estivesse ocupada imaginando nosso divórcio quando ele descobrisse que não era amor, mas comodismo. Ele nunca gostou das minhas gargalhadas altas e eu nunca respeitei o apego que ele tinha por aquela camiseta velha do Aerosmith; não era pra ser.
Enquanto eu ainda seguro o cigarro apagado entre os dedos, viro meu rosto para acompanhar os lábios que deixam vazar algo: "Eu tenho isqueiro... Espera...". Uma mulher franzina e branca demais que fuma... Será que o amor da minha vida viria em uma embalagem parecida com a minha?
Eu acendo o cigarro e peço para ela me acompanhar, além do mais, não posso sonhar a noite inteira.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Solidão Colorida

Era um quadro como outro qualquer. Características abstratas, mescla de cores e várias imagens interpretáveis...
O devaneio bateu com força dessa vez, como todas as outras vezes; "O que é que deu errado?" - ecoava na minha mente.
Se eu tivesse sido menos eu por alguns segundos, talvez a essa altura, eu já tivesse alguém para chamar de "meu".
Esse sempre foi o maior conflito dentro de mim: será que eu precisava mesmo de alguém ou é a solidão, outra vez, tentando boicotar meus planos?
E assim, eu me arrastei atrás de quem nunca providenciaria o que eu precisava. E o que eu precisava? Talvez carinho, talvez amor, talvez loucura e discussão; tudo que resultasse em desequilíbrio emocional em algum momento.
Eu queria um motivo! Eu queria alguém para responsabilizar pela minha infelicidade... Não era aceitável ser a responsável.
E se a culpa fosse das constelações e a posição dos planetas? Talvez de algum ser divino e supremo que controlasse o meu destino...
Parece que quanto mais eu questionava, mais longe me encontrava de uma resposta concreta. E se essa resposta estivesse em mim?
Droga, não conhecia ninguém que tivesse feito uma lobotomia bem sucedida ou algum pai de santo que a encontrasse em minha alma.
Era tudo culpa daquele maldito quadro! Eu sempre disse que as cores dele não combinavam com a capa do sofá mas nunca tomei uma atitude.
Acho que tinha medo de deixar a parede vazia e dar um ar muito simples à sala de estar... Não tenho outro quadro para colocar!
E se eu mudasse a capa do sofá? Bom, eu gostava da capa do sofá marrom. Dava o ar de sobriedade que eu precisava no meio de tantas cores.
Eu nunca gostei de cores, na verdade. Eu gostava de pensar no mundo como um gibi preto e branco - não cabia muita interpretação visual.
De fato, tudo que trazia a descrição "visual" me dava náuseas mas sempre escolhi as pessoas assim. Visualmente agradável? Ok.
Eu temia muito o ridículo por não me enquadrar no "visual" aceitável, até que abracei o ridículo como um adjetivo não mais pejorativo.
Agora, quero que o mundo seja todo ridículo em suas particularidades coloridas e que tudo se encaixe nesse maldito quadro!
Acabei nomeando o quadro como "Solidão colorida" - um nome irônico e divertido que sempre me lembra que o que eu preciso é parar de
me irritar com as inconstâncias e parar de tentar parear as coisas... Tanto o quadro e o sofá, quanto eu e alguém que não se encaixa em mim.
"Solidão colorida" é seu nome. Signo de áries. Seu ser divino e supremo é aquele que se identificar em suas cores - vermelho, azul, verde, preto, amarelo e traços dourados que desenham o cabelo de Marilyn Monroe em sua forma abstrata de quem estará ali sozinha enquanto for identificada assim.