Bia sempre foi uma criança introvertida que não sabia como impor suas vontades ou necessidades as pessoas a sua volta. Sempre soube que seria como um hamster colocado em um aquário de cobras quando saísse de sua barraca de lençol arquitetada cuidadosamente no centro de seu quarto - o mundo era um lugar além de hostil e seu certificado de "Como se adequar entre os idiotas que você despreza" venceu antes mesmo que ela soubesse que o tinha.
Sentia atração pela vizinha, se apaixonava pelo vizinho mas no final do dia declarava toda a sua devoção por sua mãe - seu instinto de proteção era voltado a ela. Era a aluna com notas altas que engolia alguma palavra prolixa enquanto soluçava chorando depois de algum colega de sala taxá-la como "inteligentizinha" e chutar sua canela.
No entanto, a escola sempre foi o refúgio quando precisava refletir sobre seu lar desestruturado, sua imagem paterna alcoolizada e sua necessidade em proteger a imagem materna do que ela esperava que fosse uma prévia da ruína matrimonial que viria.
Bia perdeu sua imagem paternal alcoolizada para o abandono afetivo de fato. Nunca soube como lidar com todos os seus piores sentimentos e ainda ser o apoio a pessoa que ela mais amava nessa mundo - sua mãe. Bia se perdeu em meio ao caos interno e a urgência em crescer para tomar as rédeas da responsabilidade - aos 13, Bia havia se tornado outrém.
A escola deixou de ser refúgio para se tornar um campo de batalha onde crianças pseudo crescidas e mal amadas com egos feridos estavam prontas para aniquilar qualquer espectro de vida que pairasse ali. Bia deixou de ir à escola para jogar video game na casa de um amigo da padaria. Seu amigo lhe dava kinder ovo e aquele gesto continha mais amor do que ela jamais poderia imaginar receber algum dia.
Bia foi levada a acreditar que a plenitude do amor se encontrava embaixo de suas roupas enquanto seu amigo suspirava no seu ouvido palavras amorosas que ela não sabia sequer o significado já que nunca as tinha ouvido. Não sabia ao certo se era aquilo que queria mas não poderia contrariar a única pessoa que tentou fazê-la se sentir amada; deveria ser aquilo. Aquilo era amor! E com toda a inocência de seu senso crítico mal trabalhado, de seu hímen intacto e de que aquilo era amor; se entregou. A dor que sentia não representava perigo maior do que havia sentido durante toda a sua infância, então, deveria ser mesmo amor.
E a única forma que ela aprendeu a amar foi através do seu silêncio... Que se perpetuou por alguns anos, como se estivesse submersa, impedida de respirar durante todo esse tempo.
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