A vida inteira acreditei que o inalcançável fosse apenas uma expressão para desiludir quem pensasse diferente... Temo que eu tenha, por fim, aceitado me encaixar. Assim como me encaixei em uma poltrona que lesava minhas pernas ao ponto que a dor física se equilibrou com a emocional.
Foram algumas horas de viagem. A playlist já estava na terceira repetição e eu estava com aquele sentimento de que se a minha música preferida fosse a próxima a tocar tudo estaria bem... Mas eu havia me esquecido de adicioná-la a nova playlist e ela não tocou. Assim como a razão não tocava mais na minha mente. Eis, de volta, o desequilíbrio; amargo como jamais tinha sido antes.
"Collecting names of the lovers that went wrong" - minha imaginação tornava real a sensação auditiva; eu podia ouvi-la como se realmente estivesse tocando. Quantos amores mais teriam que dar errado até que eu entendesse que o problema estava em mim?
Sempre esperei demais das pessoas e ninguém conseguiria preencher o vazio dos meus pulmões para que eu desse um suspiro sincero. A nicotina sempre se encarregou disso.
Eu me acostumei a idéia de que tudo passa. Até o mais puro e belo romance passa se tornando uma piada interna na rodinha sentada no fundo do bar; eu gargalho e encho o copo para me levantar e ir ao fumódromo - não dá pra sonhar acordada com pessoas ao redor.
Uma nova cidade, um novo bar, uma nova marca de cigarro e uma cerveja artesanal com gosto de café requentado; tudo parece novo demais para uma consciência tão velha. Parece que todos os dias eu pego um comprimido de desilusão e o engulo como se fosse meu fiel escudeiro. Ninguém pode te magoar quando você já não tem ilusões, da mesma forma que ninguém pode te surpreender se você não tiver esperanças.
A cigana que passava pela rua pegou a minha mão como se tivesse a solução dos meus problemas e enquanto olhava aterrorizada nos meus olhos, disse: "Uma face tão nova para uma alma tão antiga. Você é muito apegada a destruição." e me aconselhou que acendesse uma vela para o meu anjo da guarda me proteger.
Tem uma vela acesa em cima do armário da cozinha com uma carta embaixo escrita para o meu anjo da guarda: "Me poupe de mim mesma, por favor. Assim seja.".
Triste perceber que não existe ninguém no mundo que possa me ferir mais que eu mesma e disso eu tenho corrido com todo o meu fôlego. O problema é que depois do vício, fôlego não é alternativa e correr sempre foi um caminho muito difícil para alguém tão apaixonada pela instabilidade caótica que a minha vida pode criar da noite para o dia. Eu estou fadada a lidar comigo até o fim dos meus dias.
Há quatro anos que penso em reescrever um esboço de livro que perdi, mas o medo de me reconectar a tudo o que me fez ser como sou me petrifica. A busca pelo auto conhecimento é uma maldita faca de dois gumes quando você se ilude que perdoou o mundo mas suas unhas pagam por essa frustração toda vez que solta uma lasca nos dentes.
O verdadeiro problema está em aceitar que possa ser verdade quando ele diz que me ama, mas que me ama com todos as minhas qualidades e mais ainda pelos meus defeitos...
A definição de flagelação é esperar ansiosamente pelo dia em que ele irá me abandonar numa rua vazia e insuportavelmente fria que se assemelhe ao estado da minha alma após ele me dizer que finalmente reconheceu que seu equívoco; e toda a esperança que eu engoli durante o tempo que ficamos juntos irá descer como um veneno e me causar um refluxo para o resto da vida.
"PARADA EM SÃO PAULO! FAVOR DESCER DO ÔNIBUS!", mas eu queria mesmo era descer do trem desgovernado que eu chamo de mente já que ele não me pertence. Ele nunca poderia me pertencer já que isso pediria que eu o pertencesse em troca... Não posso entregar algo que sequer me pertence no momento. Eu me perdi no meio das minhas neuroses e dos pensamentos contínuos de que estou fadada a não ser de ninguém, sequer minha.
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